top of page
Âncora 2

Você tem medo de fazer ações na rua e mesmo assim as faz. Pra quê? Medo de ser preso. Sei
lá. De ter que fazer a sua família gastar uma grana que ela não tem. De dar vergonha a eles.
Mas isso não te impede de andar por aí. Você gosta de ver as coisas. Geral na correria, o
movimento, alguém vindo lá atrás correndo pedindo pro motorista do ônibus esperar. Você dá
três tapas na lataria para avisar: peraê, motô! de reparar as coisas. As pessoas. O ruído de
fundo. Nossos ritmos. A copa das árvores esfregando o céu, a bandeira murcha do Brasil em
alguma dessas janelas, o inhame cortado pela metade caindo da torre, você, pegando o celular
e fingindo que está mandando mensagens em uma loja que tem um segurança te vigiando:
mostrar que as suas mãos estão vazias. E estão mesmo. Toda cidade é uma plantação. O que
você achou do quintal para dentro não é seu, é do dono da casa. Se achou na rua, não tem
dono. Tipo um dinheiro, um cordão, uma coisa. Mas se você achar, você entrega. Você desde
cedo percebeu ser uma fruta estranha. Você é fruto(a) daquela cultura global. Você era
noveleiro. Mas você nem é tão preto assim? – Essa merda te fez acreditar que você podia
andar por aí como quisesse (tipo com aquela touca preta, lembra?) e que tava tudo bem.
Chocolate com Pimenta. Da cor do pecado. O filho da Preta. “Não pode não, meu filho; ainda
mais à noite” – já te avisaram desde cedo sem dar muita explicação, e você ficava puto era
com eles quando, na verdade, tinha que tá era de Malcolm o mundo
. E é isso: fique puto com essa merda de mundo racista. Mas não deixe isso te fazer parar de andar por aí. É porque você é metade mineiro: come quieto pra caramba. Se alguém te passa a perna, você fica quieto. Você fica aqui. Não passa dali. Ela fica aqui, ele lá. Você nunca entendeu esse negócio de lugar. Ainda bem. Você é des-léxico (não entende a gramática do mundo). Colonial. Que quer domesticar seu corpo. Sua boca. Sua vista. Seu cabelo. Seu modo de falar. Essa sua coluna aí, curvada, como se estivesse carregando um saco de areia nas costas. Vocêsabe-sente. Porque o seu entendimento é outro. É preciso compor com o amargo. Ser poroso com o mundo: em cada poro do corpo: VAMO ACORDAR! VAMO ACORDAR! DEMOROU, VAMO ACORDAR! PORQUE O SOL NÃO ESPERA, DEMOROU VAMO
ACORDAR!
. Você só estuda? Não trabalha não? O trabalho dignifica as pessoas – te falam.
Sua família toda. A sua coroa ficou felizona quando você arrumou o primeiro emprego. Você
voltava do front com o rosto sujo de fuligem. Debaixo das suas unhas tinha uma paisagem
escura de graxa. No dedo. Oasis. Você é preguiçoso. Você não gosta de trabalhar. Quem
gosta, né? Se fosse bom não chamava trabalho. Tú fala. Nós estamos sentados numa cadeira
procurando mesa. Para subir em cima, é claro. E chutar o balde no ritmo em que pinga a água
da goteira. Cavar o buraco do telhado e abrir até virar um Ribeirão Santo Antônio, alargar
mais um pouco para um Rio Paraibuna, desaguando em um oceano que recusa: pra largar
mão dessa crença de que as ideias têm que ter um propósito, como se dali pudesse sair algum
significado. Não dá para usar as ferramentas do mestre para querer destruir a casa-grande14
. É preciso meter as caras e fazer. Escutar as solas dos pés. Olhar com a ponta dos dedos. Não
com os olhos que te ensinaram a olhar, que dizem que só se olha com os olhos. Que o olhar
depende do fenômeno. É pra olhar como alguém que desconfia, porque “o olho não é apenas
espelho, mas espelho retificador”.
 Olhar trêmulo. Olhar torto. Olho-faca. Olho morteiro.
Olho molenga. Olho menor. Olho sem foco, oco. Abre. Fecha. Olho clarão. Habitar o oco, como se fosse lata. A palavra da lata, aquela que se completa na secura do ritmo. Que serve
pra te mostrar a pele, não os instantes. É prego no chinelo, mais um furo no cinto. O vidro
depois de quebrado é pra virar cerol: as táticas são muitas, sons e sinais invisíveis marcando
pontos de escape. Escute as entrelinhas. É. E, por favor, acreditar sempre nela. Poesia. Hoje é
domingo.

 Contato: lucassoaresarte@gmail.com

 

loader,gif

© 2022 Lucas Soares

bottom of page